Tenho compreendido a importância de se trabalhar sequências didáticas planejadas, com práticas de linguagem bem contextualizadas; e as oficinas da Olimpíada de Língua Portuguesa cumprem bem esse papel. O mais fantástico é que não se trata de um material engessado, mas diz respeito a: “O lugar onde eu vivo”, adequando-se, portanto, à realidade de cada região.
Logo no primeiro bimestre, incluí no meu planejamento uma oficina com base no material da edição anterior. Utilizamos um artigo de Lya Luft, “Os filhos do lixo”, e começamos o diagnóstico sobre o conhecimento dos alunos acerca do gênero estudado. Além de saber informações sobre a autora, foram levantados questionamentos sobre a polêmica inserida no texto, os argumentos, os dois lados da questão, levados a observar se havia solução para o problema e se o aluno reconhecia o porquê daquele texto estar enquadrado como artigo de opinião.
No geral, as respostas foram satisfatórias. Alguns alunos meio receosos, mas com muita vontade de acertar, adentraram o texto e começaram a desvendar o mistério, respondendo às questões propostas. “Professora, é complicado encontrar essas vozes que estão dentro do artigo” – comentou uma aluna, tentando responder, achando que não conseguiria realizar tal façanha. Para mostrar que vale a pena investir tempo em orientação, quero relatar que essa foi uma das alunas que, durante o processo de construção, demonstrou mais interesse e se apropriou de questões fundamentais acerca de um artigo. Eis um fragmento de um de seus textos, que teve como título “A Superlotação da CCPJ em Imperatriz”:
“A central de Custódia de Presos da Justiça(CCPJ), em Imperatriz, encontra-se atualmente superlotada, com uma média de 300 presos, o triplo de sua capacidade. Por esse motivo, foi interditada em maio deste ano pelo Promotor de Justiça, Domingos Eduardo, da 5ª Vara Criminal de Imperatriz, pela segunda vez. O caso chegou a esse ponto pelo fato de que há presos de outras comarcas, de outros estados, que não deveriam estar em nossa cidade.” Nesse fragmento, a aluna demonstra a compreensão dos aspectos que devem fazer parte de uma introdução, mencionando a cidade em que habita e apontando o problema em questão. Por motivo de espaço, não registrarei o restante da produção. O certo é que a aluna que parecia não entender nada sobre este gênero, ganhou autonomia na produção escrita, através da prática nas oficinas.
Já com o material desta edição em mãos, demos início à 2ª oficina do caderno “Pontos de vista”. As coisas foram, aos poucos, se delineando. A proposta tratava da diferença entre notícia e artigo de opinião, quando os alunos foram instigados a produzir argumentos baseados na leitura da notícia: “Menino de 9 anos é internado após agressão em escola”. Foram interrogados se a agressão tinha justificativa, sobre o que teria causado tão alto nível de violência e se havia preconceito por trás da reação. Após esse debate, os alunos foram convidados a argumentar, por escrito, sobre comportamentos preconceituosos. Precisariam, portanto, conhecer mais profundamente os aspectos presentes em um artigo de opinião, como a questão polêmica, os argumentos conflitantes e a posição do autor. Em oficinas posteriores, tiveram a oportunidade de identificar artigos de opinião em revistas renomadas e de identificar as peculiaridades do gênero.
Uma das oficinas trazia a sugestão de temas polêmicos que poderiam ser trabalhados em sala de aula. Alguns deles causaram muita discussão, tais como: “A pena de morte ajuda a diminuir a criminalidade?”, “A sociedade tem o direito de tirar a vida de um criminoso?”. Outros, mais ligados aos próprios alunos, como: “Deve-se proibir o uso do celular em sala de aula?”. Algumas dessas e outras questões foram abordadas, dividindo a turma em grupos e dando um tempo para defenderem seu ponto de vista. Já era possível perceber o avanço argumentativo. Isso me deu ânimo para prosseguir.
Em outro momento, começamos a traçar o rumo para o artigo de opinião definitivo. Orientei que os temas deveriam estar relacionados a uma questão polêmica que tivesse relevância para os habitantes da região. Surgiram muitas propostas, as quais foram debatidas e analisadas, a fim de saber a importância daquele tema, tanto no aspecto local quanto global.
A 13ª oficina foi decisiva para a compreensão das particularidades de um artigo. Primeiramente foi entregue um texto que apresentava alguns problemas estruturais, pois não continha os critérios essenciais ao gênero. Tratava-se do artigo: “O lugar onde eu vivo”. Paralelo a esse texto, foi apresentado um outro, já aperfeiçoado, que se aproximava mais das marcas do artigo desejado. A começar pelo título, o primeiro não despertava curiosidade. Foi a mera transcrição do tema da Olimpíada. O texto aprimorado apresentava o seguinte título: “Os problemas de Samambaia do Leste têm solução?”. Comparando os dois títulos, percebeu-se que o segundo já apontava para o que seria tratado no corpo do texto, sendo, portanto, mais específico. O primeiro não formulou bem a questão polêmica, deixando de apresentar vozes por trás dos argumentos, utilizando uma maneira superficial de analisar os dados, sem deixar claras as possibilidades de conciliação ou encaminhamentos para os problemas apontados.
Os alunos puderam perceber que o segundo texto apresentava fundamentação teórica, dados estatísticos, expressão das partes envolvidas, prós e contras. No fechamento, não havia utopia em afirmar solução definitiva, mas apontava o fato de que boa parte dos problemas poderiam ser resolvidos, se determinadas medidas fossem tomadas.
Parece que estavam aptos a escrever os artigos definitivos. Dentre as muitas polêmicas trabalhadas no decorrer das oficinas, algumas se destacaram: “Zorra eleitoral”, que tinha a ver com os níveis elevados de decibéis advindos das propagandas políticas nos carros de som; “A Inclusão dos ex-presidiários na sociedade imperatrizense”; “A Lei, a educação e a palmada”; “Táxi-lotação: opção ou necessidade?”; “Copa do Mundo com miséria social?”; “Ficha limpa: problema ou solução?”; “Eucalipto: Progresso ou Retrocesso?”
Alguns desses textos poderiam estar classificados entre os melhores. Entretanto, no momento da seleção foram relembrados os critérios avaliativos, os quais já haviam sido mencionados em momentos anteriores. Dos temas-título mencionados acima, apenas o “Zorra eleitoral” teria duplo sentido, não fosse a explicação dada paralelamente. Entretanto, outros títulos nas produções dos alunos eram inconsistentes, como por exemplo: “O trabalho Infantil”. Orientamos, então, que o aluno repensasse seu título, focalizando-o, apontando para um problema mais específico.
Confesso que dos títulos mencionados, o texto: “Copa do Mundo com miséria social?” atendia bem aos aspectos de abordagem do problema na introdução, deixando claro que o ponto de vista da autora dizia respeito à questão de o Brasil sediar uma copa com tantos problemas internos, apontando as vozes de quem era contra e a favor. O critério que não estava sendo muito atendido nesse texto era o regional, pois apesar de se estar no Brasil, havia outros textos em que o aspecto local estava bem mais explicitado. Essa análise coletiva foi muito proveitosa, concedendo aos alunos mais domínio sobre as propriedades de um artigo, gerando um olhar mais crítico, uma visão das partes e do todo, fundamentais à arte de escrever.
Os resultados do processo foram muito positivos. Ao reviver a dinâmica do Jogo das questões polêmicas, fui surpreendida com os argumentos dos alunos. Os comentários não eram mais superficiais, não iniciavam com “eu acho”, buscavam suporte interdisciplinar, fundamentados na voz de autoridades na área, convictos do que estavam afirmando. Esse momento me fez sentir que valeu a pena. Foram passos importantes na construção de comportamentos leitores e escritores. Experiências que ficarão pra sempre em minha memória e a certeza de ter contribuído na formação de leitores mais críticos e autônomos, certos de suas possibilidades investigativas e criativas.
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